'Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! E eu acreditava. Acreditava porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis'

25 novembro, 2008

Sometimes, when I disappear...

Sophie Pawlak
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- Estou cá a pensar se o Harry ainda tem a moeda de oiro – disse o Spareribs.
- Qual moeda de oiro?
- Quando nasce um menino judeu põem-lhe uma moeda de oiro no banco. É assim que fazem os judeus.
- Bolas, tu misturas alhos com bugalhos. – disse ela – Estás a pensar é nos católicos. Assim que nasce um menino, os católicos compram-lhe uma pistola. Um destes dias os católicos vão começar uma guerra para acabar com toda a gente.
- As freiras fazem-me sentir esquisito. – disse o Spareribs – Quando vejo uma na rua tenho medo.
Mick sentou-se nos degraus e pousou a cabeça nos joelhos. Depois entrou no Quarto Interior. Para ela era como se houvesse dois quartos – o interior e o exterior. A escola e a família e as coisas que aconteciam todos os dias pertenciam ao quarto de fora. Mister Singer estava em ambos. Os países estrangeiros, a música e os planos e projectos pertenciam ao Quarto Interior. E as canções em que ela pensava também. E a Sinfonia. Quando ela estava sozinha no Quarto Interior voltava-lhe à memória a música que tinha ouvido durante a noite da festa. Era como uma grande flor que se abria dentro dela. Durante o dia, por vezes, ou quando acabava de acordar, pela manhã, vinha-lhe de repente à lembrança um novo trecho da Sinfonia. Então tinha que ir para o Quarto Interior e escutá-la muitas vezes para tentar juntar esse trecho aos que já tinha de memória. O Quarto Interior era um lugar inteiramente privado, só dela. Podia estar no meio duma sala de gente e ainda assim fazer de conta que estava fechada à chave por dentro.
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[Carson McCullers]
[Foto: Sophie Pawlak]
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8 comentários:

Spectrum disse...

Hum, a recolha ao lugar de nós. De ti. É sempre viagem fantástica, ainda que nem sempre gostemos das imagens reflexas. Excelente, como sempre, miúda dos olhos d´água.
Beijinhos.

Vanessa disse...

o que eu corri por este livro... aiiiieeeee!

e essa música... queres matar-me do coração? :D

*

nana disse...

e ainda assim ser (só) música em mim.



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as velas ardem ate ao fim disse...

A curiosisade ficou ao rubro!quero este livro!


um bjo

diana disse...

Delicioso!!

S. disse...

Valham-nos estes refúgios...nos livros e no coração :)

Um abraço

lebredoarrozal disse...

este livro é lindo (todos os livros dela são deslumbrantes)
e esta passagem é deliciosa:)

Andreia disse...

lebre do arrozal, não li mais nenhum dela. mas agora fiquei curiosa. vou ver se encontro mais algum. :)

s., sim, às vezes é das únicas coisas que nos valem... beijinho.

diana, :) *

as velas ardem até ao fim, acho que ainda vais gostar mais quando o leres. :) Beijinho.

nana, a música, quase sempre a música... *

vanessa, tens que ir a mais alfarrabistas... :) *

spectrum, desde que haja música e viagens e livros e chocolate quente, acho que vamos gostar sempre da imagem reflectida... :) beijinho.

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