'Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! E eu acreditava. Acreditava porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis'

04 fevereiro, 2009

O milagre do sol ou do esticar do tempo. Tu.

jola bakoniuk
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há muito que a hora de jantar já passou, por isso eu na sala escura, a janela preferida da casa aberta porque a chuva cai com força lá fora. parece destruir tudo. costumava gostar desta janela em dias assim, sentia-me feliz ao ver a água a cair no muro baixo em frente, ao imaginar o mar bravo atrás, perto. hoje sinto-me cansada deste Inverno. sinto falta do sol, dos dias compridos, das noites quentes, do tempo que não escasseava, como não escasseava o entusiamo. das tardes de Agosto que passei contigo. de uma em especial, a primeira.
eram umas duas e meia da tarde de um dia quente quando me foste apanhar à estação. lembro-me que chegaste uns minutos atrasado e logo o telemóvel a tocar e tu a pedires desculpa. eu a dizer não faz mal. e não fazia. dava-me tempo para respirar. para pensar nas exactas palavras que te diria quando te visse. depois chegaste, vi-te, entrei no carro e beijaste-me. e eu e o meu vestido vermelho sem saber o que dizer e o que fazer, apesar de tudo pensado, bem medido, planeado. mais tarde veio o jardim, uma ou duas exposições, tu a dizeres que a nossa casa seria tão cor-de-rosa como a de uma fotografia que lá estava. a nossa casa. eu só a ouvir a nossa casa. e a rir-me. meu deus, como me fazias rir! e a pensar que de certeza desaparecerias nos próximos dias, já estava a ter a minha dose de felicidade. depois abraçavas-me em todos os cantos, ainda mais quando estávamos sozinhos. parecíamos dois adolescentes. temos que sair daqui, fartávamo-nos de repetir. e entretanto contavas histórias das tuas viagens e eu pensava que gostava de te ter conhecido desde sempre, saber de todos os teus passos, como era a tua voz em criança, a que brincavas no jardim da escola, quantos gafanhotos apanhaste, se tiveste medo do escuro e se te escondias como eu dentro de um guarda-fatos velho à procura de aranhas. e, aos ouvires as minhas, fingias ficar horrorizado com as galinhas que depenei na eira da minha avó, com os pescoços cortados, os ovos tenros que comíamos depois. o teu corpo a fingir que se afastava, tu a dizeres-te assustado, para logo de seguida te aproximares. se eu ainda não te amasse na altura, teria sido aí que começaria: sob o céu azul de Agosto, bem distante já deste Inverno que por mais que eu faça, parece não se desentranhar de mim.
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12 comentários:

r disse...

era o principio do verao e o novo principio da minha vida. tinha um vestido branco, muito branco e curto.
sentei-me num degrau da estaçao de comboios à espera dele. preocupava-me com a posiçao das minhas pernas, tal como uma menina.

estava nervosa, e fumava.

ele chegou e fomos para a praia.
fiz-lhe festas nas costa e ele disse-me que continuasse nunca mais me veria livre dele.

olhei os cabelos já brancos dele e recriminei a vida por não lhe ter conhecido o sorriso adolescente.

mais tarde disse-me que me queria dar um bébé. o meu bébé.

junho foi o meu mês.

Vanessa disse...

lindo. lindo. lindo.

(para mim, o mais bonito de todos. sério.)

:)

beijinho pirilampa*

(saudades de ver janelas abertas. contigo, em frente à ria. you know. :))

Peregrina disse...

uau. maravilhoso :)

tinta disse...

Gosto de passar aqui e para além de gostar de passar aqui, faz-me bem ler logo no começo

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! E eu acreditava. Acreditava porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis


Lembro-me perfeitamente duma professora do liceu durante uma aula dizer que o Eugénio de Andrade era o seu poeta preferido.

É a minha primeira recordação de ouvir falar em poesia.

Já li essa frase milhões de vezes, a ainda hoje me faz bem e me maravilha como se fosse a primeira vez.

O que nos maravilha são sempre as coisas mais simples.

E há lá coisa mais simples e linda que acreditar nos olhos peixes verdes.

Acreditar que tudo é possível.

Canelita disse...

já sabes como é..o que me fazes...
lí, a seguir o sorriso, o aperto, o nó na garganta, o sorriso novamente!
:)

Canelita disse...

já sabes como é..o que me fazes...
lí, a seguir o sorriso, o aperto, o nó na garganta, o sorriso novamente!
:)

JFDourado disse...

Leio e releio este texto e só uma palavra me vem ao pensamento. Belo, muito belo mesmo!

:)

alice disse...

muito bem escrito. confidência: eu também depenei galinhas na minha infância, com a minha avó que agora vive comigo e tem 90 anos :)

diana disse...

Lindo demais.

as velas ardem ate ao fim disse...

aqui tive um inverno com sabor a sol.

obrigada por escreveres tão bem.

um bjo

Andreia disse...

as velas ardem até ao fim, :) beijinhos. obrigada eu.

obrigada diana.

alice, a minha avó ainda não tem 90 anos, mas também já não falta muito. foi uma infância feliz graças a ela. imagino que a tua também :)

jfdourado, obrigada :)

Andreia disse...

abraço, borboleta! :)

tinta no bolso, eu acredito mesmo que tudo é possível. :) o Eugénio também foi um dos meus primeiros contactos com a poesia, há já alguns anos atrás... não foi o primeiro porque esse lugar cabe à Sophia (eu costumava entrar à socapa numa casa na praia, agora abandonada, onde ela morou), mas gosto muito dele.

peregrina, obrigada :)

vanessa, saudades de ver a ria dessas janelas abertas de que falas em dias de sol. saudades dessas janelas, dos tangos e das nossas conversas parvas e da música que nos costumava deixar histéricas :) beijinhos.

r, que bonito :) as estações de comboios são mesmo um lugar especial. beijinhos.

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